Pessoalmente defendo que a matemática financeira é uma ferramenta primordial para tomada de decisões nos dias de hoje.
Diria que no Brasil ela é ainda mais importante, pois o nosso país tem como característica, a meu ver prejudicial, ser um “grande e bom mercado consumidor”, que no fundo quer dizer que o brasileiro compra muito e sem pensar direito. Se não concorda, dê uma olhada nisso aqui: http://exame.abril.com.br/economia/noticias/brasileiro-corta-basico-para-manter-superfluo-diz-estudo .
Pra mudar isso, somente muita conscientização, que se dá através de educação. Existem países atentos a isso que incluem no currículo básico a educação financeira como forma de tornar as decisões de compra mais conscientes. Infelizmente, no Brasil isso custa (muito) dinheiro e geralmente se aprende muito tardiamente – eu sou uma dessas vítimas.
Nesse contexto surgiu um mercado para satisfazer a
demanda de saber usar melhor o dinheiro. São cursos, ferramentas, até trabalhos
(estágios e empregos), e, agora em tempos de crise, uma horda de produtos dos próprios
financiadores, isto é, os bancos e players financeiros. É um marketing que
vende muito bem e se utiliza de técnicas bem sutis, como você vai perceber ao
longo desse texto.
O que me motivou a escrever esse post foi essa notícia da Infomoney: http://www.infomoney.com.br/blogs/infomoney-recomenda/post/4764360/como-comprar-corolla-com-juros-suas-aplicacoes-000. O texto – que na verdade é uma propaganda – busca lhe dar uma boa razão para investir seu dinheiro, de modo a conseguir comprar um carro (um Corolla) com a renda obtida através da operação. Porém, infelizmente, fazer esse tipo de coisa não é tão simples. E é aqui que a minha introdução sobre a educação financeira se relaciona com a crítica a essa matéria. Vai vendo.
Afinal, porque o brasileiro é tão lento; nossos pais – por exemplo – foram ou são tão ignorantes; a ponto de não perceber uma coisa tão básica? É justamente porque sobre a questão de investir dinheiro e comprar um carro incidem vários fatores que tornam a resolução da pergunta bem complexa. Vou aproveitar os conceitos de Engenharia Econômica para explicar meu ponto.
Primeiro de tudo, é bom fixar a proposta dada pelo autor da Infomoney: “Você aplica os R$ 54.000, espera alguns poucos anos e, pronto, passa a ter os R$ 54.000 mais um Corolla”. Para tanto, argumenta que você deveria ter aplicado o dinheiro em 2008 em algo que tenha um retorno equivalente ao CDI, que no período de 2008 a 2016 foi de 127,73%. Com isso não só você manteria o valor inicialmente investido, como teria um rendimento bastante para comprar o carro sugerido.
Inicialmente, o que me indignou profundamente foi propor
algo no presente e depois justificar no passado. A proposta era aplicar R$ 54.000
e depois de um tempo resgatar isso mais rendimento suficiente para comprar um
carro. Ter aplicado esse mesmo valor no passado não tem relação com a proposta feita.
Das duas uma: ou a manchete deve ser corrigida para dizer “Se você tivesse investido bem em 2008, hoje estaria andando com um
carrão e o dinheiro na conta”, ou toda a matéria precisa ser reescrita para
contar a verdade o que esperar dos rendimentos no futuro.
A primeira alternativa é problemática, porque ela não é verdadeira. Ainda que o CDI tenha rendido 127% no período, o fato é que sobre esse valor ainda têm de ser descontados os custos do investimento (tributação, taxas incidentes e etc.), de modo que ao final do período você terá não o dobro do que investiu, mas uma parte disto, de modo que deverá esperar mais um pouco para ter o dobro inicialmente pretendido.
Então, vamos analisar seriamente a segunda questão que se coloca: qual é o tempo necessário para adquirir um carro com rendimento de um investimento inicial de R$ 54.000 (cinquenta e quatro mil reais)?
Teoria: delimitando o problema
Pois bem, iniciando pela teoria, vamos pressupor que você
pode esperar o tempo necessário para ter o retorno esperado.
Valor presente (PV):
Vamos tomar o valor do investimento inicial de R$ 54 mil, e pressupor ainda que você tem esse dinheiro disponível no momento presente. Esse valor será investido a um taxa e deverá retornar um valor suficiente para comprar o sonhado carro ao final do período.
Taxa razoável (i):
Precisamos eleger uma taxa que represente a evolução do dinheiro no tempo.
No caso a taxa aqui é composta, o que quer dizer que no investimento incide o anatocismo (juros sobre juros), algo ainda pouco enraizado na mentalidade dos brasileiros. Existe um método próprio para aplicar esse tipo de juros, mas não vamos entrar em grandes detalhes. Apenas vamos fixar que estamos utilizando juros compostos.
Uma taxa razoável para se utilizar no caso seria a própria taxa básica de juros, no caso a SELIC, pois no mercado existem títulos e produtos financeiros atrelados a essa taxa e com baixo risco.
Como estamos analisando o futuro, precisamos considerar ainda uma previsão dessa taxa no futuro. Afinal, se queremos algo mais próximo à realidade, não seria prudente tomar a taxa atual de 14,25%a.a. como válida para os próximos anos, dado que existe toda uma pressão para baixá-la quando a crise diminuir um pouco. Vamos então utilizar uma média da taxa SELIC dos últimos 3 anos. Fui no site do BACEN ( http://www.bcb.gov.br/?COPOMJUROS ) e peguei taxas representativas dos anos de 2015 (14,15%), 2014 (13,65%) e 2013 (11,65%). A média, então, foi de 13,15%a.a., que utilizaremos como nossa taxa estimada inicial.
Uma última coisa sobre a taxa é que não vamos descontar a inflação porque não estamos tão interessados na evolução do preço dos carros. A ideia é que seja comprado um carro no final do período com o dinheiro disponível.
Valor futuro bruto (FV):
Vamos supor ainda que estamos em busca do dobro do rendimento, isto é, de R$ 108 mil no final do período.
Mas é preciso lembrar que, via de regra, incidem vários custos sobre os investimentos, entre eles a tributação e as diversas taxas cobradas pelos players do mercado.
Como elegemos uma taxa vinculada à SELIC, pensamos em algum dos títulos do Tesouro Direto, onde são cobrados 0,3% a.a. pela BMF&BOVESPA e algo entre 0 e 2% a.a. por uma instituição financeira. Vamos estimar a taxa da instituição financeira em 1% a.a. (vide http://www.tesouro.fazenda.gov.br/-/cobranca-de-taxas-no-tesouro-direto ). Como essas taxas são cobradas do investimento, vamos descontá-los diretamente da nossa taxa então estimada de 13,15%, que passará a ser de 11,85% a.a. (que é o resultado de 13,15% - 1,3%).
Além disso, existe tributação sobre a valorização neste tipo de investimento. No caso, as taxas variam em torno de 22,5 a 15% de acordo com o prazo de duração do investimento. Como no caso ele deverá superar 2 anos (720 dias), podemos estimar a tributação em 15% sobre o saldo. Daí que precisamos incluir a tributação no nosso valor futuro para, após o pagamento dos tributos, termos livre os R$ 54 mil para comprar o carro.
Enfim, nosso valor futuro bruto será de R$ 127.058,82 (valor esse que dá R$ 108 mil quando descontada a tributação).
Descobrindo o período (n):
Finalmente, vamos calcular o período necessário. A partir do
valor presente de R$ 54 mil, do valor futuro bruto de R$ 127,058 mil e da taxa de
11,85% a.a., obtemos que seriam necessários cerca de 7 anos e 8 meses para ser
possível comprar um carro com os rendimentos desse investimento.
Lembrando que estamos supondo várias coisas: você não precisará
desse dinheiro nos próximos 7 e poucos anos; taxa de rendimento de 13,15% a.a.,
investindo em Tesouro Direto; manutenção das taxas de custódia e instituição
financeira em 0,3% e 1% a.a.; com R$ 54.000 encontraremos um carro equivalente
ao Corolla de hoje.
Eu particularmente não acho que 7 anos seja período curto de tempo. É possível que daqui alguns anos estejam sendo comercializados veículos Tesla, e aí eu não vou querer andar de Hyundai. Então, pra mexer nessa conta seria preciso aumentar o investimento inicial ou buscar um valor futuro menor para comprar um carro num menor espaço de tempo. Tudo isso faz com que a proposta da Infomoney se torne um pouco menos atrativa que de início se imaginou.
Mas esse é o mundo ideal e bem delimitado. Na prática existem outros fatores a serem ponderados, que tornam ainda mais irreal a ideia inicialmente proposta.
Vamos aproveitar a pergunta anterior e desenvolver alguns
assuntos relacionados à análise de investimento.
Prática: porque comprar um carro e alternativas de investimento
Custo de Oportunidade:
Em economia é comum fazer a diferenciação entre 2 ações básicas do sujeito no que diz respeito ao dinheiro: ou poupar, ou gastar. Essa é uma questão que se coloca quando vamos decidir se vamos comprar um carro ou não.
Como estamos falando em matemática financeira, também está
sob o domínio da matéria a questão de avaliar a necessidade de entrar em
determinado projeto, ou seja, de se obter o custo de oportunidade.
A forma como calculamos o custo de oportunidade de projetos
está na comparação do projeto em análise em comparação com outro qualquer,
avaliando qual é o melhor, qual é o que mais atende ao objetivo, financeiro ou
não.
No caso de comprar um carro ou não, é preciso analisar qual
o objetivo que se busca com tal compra. É apenas locomoção? É status? É
qualquer outra coisa?
Enfim, em tempos de crise e ainda mais em tempos de
conscientização financeira é importante calcular o custo de oportunidade de
certas decisões.
Por exemplo, partindo do objetivo de que um carro serviria
pra locomoção casa-trabalho-estudo, temos que, dependendo da localização, é
muito mais barato usar táxi ou o atual UBER.
Vide:
http://www.valor.com.br/financas/4447022/vou-de-uber
http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2015/11/1709388-saiba-como-utilizar-a-calculadora-que-projeta-valores-de-carro-taxi-ou-uber.shtml
Não se pensa muito nisso, inclusive é chato lembrar das suas obrigações, mas a manutenção de um carro, incluídos combustível, estacionamentos e depreciação, faz com que o projeto carro saia muito mais caro que o preço da concessionária.
Mais ainda: e se ao invés de comprar um carro eu investisse o dinheiro, pensando em outro objetivo, como mudar de residência ou passar as férias viajando pela China?
Enfim, mensurar o custo de oportunidade é verificar se você
está ganhando ou perdendo com um projeto, sempre comparando-o com outra
alternativa. E hoje em dia essas alternativas são inúmeras.
Sobre essa questão específica de comprar um carro, no Brasil é uma cultura tão arraigada que inclusive é um dos fatores a justificar o altíssimo preço de um carro 0 Km. É sabido hoje que a tributação sobre veículos é altíssima, mas boa parte do preço é composta pelo lucro enorme que as montadoras impõem ao negócio. E isso tem razões históricas, por exemplo, para fazer frente ao custos pela sindicalização do setor e baixa concorrência no mercado, mas isso não é um problema do consumidor final. Ele não deveria ser o responsável por custear toda essa cadeia. Uma maior conscientização do consumidor, em escala abrangente, seria capaz de modificar esta situação.
Enfim, o custo de oportunidade é um aspecto relevante para ser considerado em análise de investimento. Daí que se sugere uma nova pergunta: em lugar de comprar um carro, quais alternativas eu tenho para investir dinheiro?
Tipos de Investimento
Fala-se muito em investimentos e planejamentos financeiros,
mas a parte operacional da coisa fica muito à mercê do operador que te vende o
produto. Investir não é simplesmente depositar em uma conta e esperar. Existem
inúmeras variáveis e custos envolvidos que acabam por tornar essa decisão complicada.
Acima dedicamos alguns parágrafos para explicar porque elegemos investir em títulos do Tesouro Direto para balizar nossa análise de investimento. O fato é que há no mercado uma infinidade de investimentos, tão variados quanto as frutas de uma feira de domingo. A boa notícia é que hoje existem ferramentas para ajudar na tomada da decisão de saber onde investir.
Eu particularmente gosto muito dessa ferramenta gratuita: https://verios.com.br/apps/comparacao/log/otimo/cdi/ . Trata-se de um comparador de fundos de investimentos, ou seja, um comparador de diversos produtos diferentes disponíveis no mercado. É diferente de um ranking de uma corretora, em que por exemplo eles podem elencar apenas os fundos que ela tem algum tipo de relação.
Outra boa opção, também gratuita é https://magnetis.com.br/ . Aqui é oferecida uma simulação de carteira (conjunto de investimentos) de acordo com seu perfil de investimento (conservador, moderado ou arrojado).
São ferramentas para auxiliar na escolha do lugar onde aplicar o seu dinheiro, mas mesmo assim é preciso ter em mente que existem custos envolvidos sobre esses investimentos, em especial taxas de administração e tributação. O meio mais seguro de verificar isso é entrando em contato diretamente com o distribuidor autorizado.
Além disso, é importante estudar questões de liquidez.
Muitos desses produtos impõem prazos para resgate do investimento, como também
um prazo para executar o resgate em sua conta bancária. Tudo isso deve ser devidamente
esclarecido pelo distribuidor autorizado a comercializar dado produto
financeiro.
E esses são as variáveis e alguns dos principais fatores que
tornam complexa a resposta para a simples análise de comprar um carro. Como se
vê, se mexermos nas suposições que fizemos, o resultado pode ser bastante
afetado.
Conclusão:
Por fim, depois de todos esses detalhes e variáveis, uma coisa pode ser tirada disso tudo: demora para fazer com que seus rendimentos sejam capazes de produzir resultados relevantes, como por exemplo pagar um item caro como é um carro. É um lugar comum, mas é sempre bom lembrar da necessidade de planejar, ponderar e avaliar projetos.
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